Carolina Maria de Jesus, uma autora marcante

“O meu sonho era viver cem anos para ler todos os livros do mundo”, dizia Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914, na cidade de Sacramento (MG), tendo se mudado para a capital paulista em 1947. Apesar de ter cursado apenas dois anos de estudo, Carolina Maria é considerada uma das primeiras e mais expressivas escritoras negras do Brasil.

“Trabalhou como empregada doméstica na casa de um médico e usava os dias de folgas para explorar a biblioteca do patrão, e assim começou a construir o rico repertório literário. Após relacionamento passageiro descobriu que estava grávida  e acabou perdendo o emprego. Gestante e desempregada, Carolina se tornou catadora de papel e construiu um pequeno barraco na favela do Canindé, zona norte de São Paulo, para conseguir sobreviver. Ela registrava o cotidiano da comunidade em cadernos que encontrava no lixo.

Para Carolina, a vida tinha cores. A fome, por exemplo, era amarela. Em um trecho do primeiro livro, a autora discorre sobre o momento em que passa fome. “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo se normalizou aos meus olhos”, cita a autora.

Carolina era negra, favelada e mãe solteira, e, acima de tudo, dona de um gênio forte e inflexível, era uma mulher briguenta que ameaçava os vizinhos com a promessa de registrar as discórdias no livro. Qualquer coisa ela dizia, “estou escrevendo um livro e vou colocar vocês lá”. Isso lhe dava poder, relatou Audálio Dantas, o jornalista que a descobriu em 1958.

A escritora considerava que a favela era tão preterida que se configurava como o quarto de despejo de uma cidade. Aponta que enquanto o centro da cidade é a sala de visitas, a favela é o quarto onde se joga o indesejável, o entulho, tudo aquilo que se quer esconder. Sua escrita, no entanto, é a forma de se recusar a ser “despejo”, a ser “resto”. Essa expressão deu título à sua principal obra, “Quarto de Despejo – o diário de uma favelada”.  Neste livro a autora relata a fome cotidiana, a miséria, os abusos e preconceitos sofridos por ela, seus filhos e outros moradores da favela. A obra foi traduzida para treze idiomas, com o total de 100 mil exemplares vendidos em mais de 40 países. “As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários” (trecho do livro Quarto de Despejo).

 Para o jornalista Audálio, a escritora foi objeto de consumo da classe média. Uma negra, favelada, semianalfabeta, muita gente achava que era impossível que alguém daquela condição escrevesse aquele livro. Essa desconfiança, segundo Audálio, fez com que muitos críticos considerassem a obra uma fraude e que ela não era capaz ou, se escreveu, aquilo não era literatura, recordou o jornalista.

O escritor e historiador Benjamin Moser, autor da mais recente biografia de Clarice Lispector, vem sendo acusado de racismo por conta de um trecho do livro, publicado no Brasil em 2011, onde ele usa termos que para exaltar a Clarice, deprecia Carolina, chamando-a de “negra que escreveu” e não de escritora; de “fora de lugar”, dizendo que parece a empregada da linda Clarice. Escreve o biógrafo.

Recentemente (18/4/17) intelectuais debateram na Academia Carioca de Letras a categoria da obra de Carolina. Parte deles defendia a obra “Quarto de Despejo” como expressão literária. Outra parte dizia ser impossível lidar com o livro nos termos de legítima produção de literatura na contemporaneidade brasileira, já que “qualquer um pode escrever”, relata o jornal Folha de São Paulo (22/4/17)”.

Ao parafrasear a autora mineira Ana Maria Gonçalves, considero que pode ser que as opiniões deles continuem sendo essas, mas a minha não será. Carolina Maria de Jesus teve uma trajetória literária extraordinária, apesar da subvalorização baseada na raça, gênero e condições sociais, o que aumentava as dificuldades para a inserção no meio editorial. Carolina foi, sobretudo, uma autora marcante e de forte sensibilidade literária, e deve ser reconhecida pelo seu talento, pela forma de refletir sobre a desigualdade social e sobre a simplicidade que compõe a condição humana.

  • Lua

    Adorei essa matéria! Autora maravilhosa a Carolina <3

  • Ana Costa

    Bom dia Lua. Obrigada por ser nossa leitora e pelo comentário. Carolina foi um exemplo de guerreira. Continue nos visitando. Abraços.

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