Dois amigos e uma égua branca

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzagase, ou simplesmente, D. Pedro II.

O imperador, apaixonado por viagens, admirador da literatura e da cultura árabe, resolveu realizar o sonho de conhecer o Líbano e divulgar o Brasil no oriente médio.

A viagem foi feita na companhia de sua esposa, a imperatriz Dona Tereza Christina e de uma enorme comitiva. Como de costume, D. Pedro levou consigo sua “égua branca” e uma “velha mochila”, onde carregava seu diário. Percorreu o país de carruagem, escoltado por soldados do país anfitrião.

E onde estaria a égua branca?

A estada no país dos cedros só aumentou seu encantamento pelo povo libanês, por quem foi chamado, carinhosamente, de “brimo”.  

Pelo caminho, o segundo Pedro encontrou vários libaneses e a eles declarou: “O Brasil é um país com muitas oportunidades de trabalho”. 

Em seu discurso, afirmou:

– Gostaria de vê-los em grande número no Brasil. Prometo que serão bem recebidos e tenham certeza do retorno próspero ao seu país. O Brasil tem muito a lhes oferecer.

Dentre os nativos presentes durante o discurso do imperador, estava o jovem Gamal. Este o ouviu atentamente e aplaudiu com veemência. A devoção pelo Líbano, expressada pelo imperador, encheu de esperança o coração do jovem libanês, com a intenção de fugir da crise árabe. Ao pensar que poderia emigrar ao Brasil, Gamal começou a estudar o português.

Poucos anos depois, como consequência das acirradas pressões demográficas, pobreza, endemias, conflitos religiosos e políticos, uma massa de homens libaneses rumou ao Brasil e mais tarde mandariam buscar seus familiares. O violento tratamento imposto nos alistamentos, também determinou a emigração de milhares de jovens com o propósito de fugir do serviço bélico.

Gamal foi um desses jovens. Inteligente, determinado e estimulado pelo pai, decidiu se aventurar em terra livre da guerra.

Enfático, disse: Vou para o Brasil!

A mãe ficou agoniada com a decisão do filho.

– É um país distante. Como vai chegar lá?

Gamal tinha buscado informações sobre a futura viagem, com Kalif, um libanês que operava como intermediário nas imigrações. Ele garantiu segurança, custo baixo e que no Brasil teria libaneses já radicados para acudir os novos imigrantes. Quando aportasse no Rio de Janeiro haveria nome e endereço de quem o ajudaria.

Com a pouca economia dada pelo pai, Gamal se encheu de coragem e embarcou rumo ao Brasil. As condições da viagem eram precárias. Desembarcou na cidade maravilhosa, num domingo, duas horas da tarde. Como tinha prometido Kalif lhe entregou o endereço de Josafah, o suposto árabe que já estaria estabelecido na cidade.

Gamal chegou ao endereço, mas não existia nenhum Josafah. Naquele local residia o carioca Castro. Um jovem de aproximadamente 25 anos, que se identificava como autodidata, estudioso do comportamento humano. Cursou dois anos de filosofia, mas desistiu da faculdade por circunstâncias da vida.  Morava sozinho, em uma casa modesta, com apenas um quarto, sala, cozinha, banheiro e varanda. Era proprietário de um pequeno armarinho no centro do Rio de Janeiro.

Ao perceber que fora enganado, a cabeça de Gamal ferveu e ele desatou a chorar. O libanês só arranhava o português, mas se esforçava ao falar. A comunicação entre os dois fluiu, com dificuldade, mas fluiu.

Castro o convidou para entrar, ofereceu um lanche e ouviu sua história. Ficou compadecido com a situação, pois, o dinheiro que ele possuía não possibilitava retorno à sua terra, muito menos se hospedar em hotel ou suprir as necessidades básicas. 

O carioca cultivava amizades e dizia conhecer gente boa pelo “faro”. Ele pressentiu que o libanês era gente boa.

E Gamal chorava!

– Esfrie a cabeça meu caro! Eu vou lhe ajudar. Você pode ficar na minha casa até encontrar o seu conterrâneo.

O brasileiro surpreendeu o libanês com o convite. Este, por sua vez, “escaldado” do golpe de Kalif, desconfiou da bondade de Castro. Mas não tinha alternativa a não ser aceitar a hospedagem. Na primeira noite Gamal não conseguiu pregar os olhos, desconfiado e com medo. Os dias passaram e o libanês começou a perceber a dimensão da afabilidade de Castro.

Em princípio, a diferença cultural e a falta de domínio do idioma molduravam um cenário desfavorável. Mas o libanês era aguerrido e trazia no sangue o que o árabe tem em abundância: tino comercial. Isso fez a diferença. Logo, começou a ajudar Castro em seu armarinho.

E o libanês ficou por ali. Aperfeiçoou o português e ensinou o árabe ao amigo.

Com o atilamento de bom vendedor, Gamal propôs mudanças no comércio de Castro. Implantaram a venda a crediário e outras melhorias significativas.

Você é muito bom nisso, garoto!, comentou o carioca.

Os dois amigos perceberam o quão importante eram um ao outro. Não demorou muito para ficarem sócios e construírem uma grande parceria. Entretanto, foi Gamal quem ficou à frente dos negócios, avalizado por Castro, com pequena desenvoltura comercial.

Com a astúcia de Gamal e o poder de persuasão peculiar, o pequeno armarinho mudou de status para um sortido empório, e mais tarde virou um grande comércio de atacado e varejo. Os sócios só expandiam os negócios. Passaram a importar mercadorias e revender. Havia comentários “à boca miúda” de que o libanês importava os produtos na clandestinidade e não pagava os impostos devidos. Contudo, os boatos nunca foram comprovados.

Após três anos, com a situação financeira estabilizada, Gamal alugou uma casa onde foi morar sozinho. Meses depois, mandou buscar seus pais e os dois irmãos menores. Todos fixaram residência no Brasil.

A notícia do progresso financeiro dos imigrantes se espalhou e estimulou o fluxo de árabes à região central do Rio. Os libaneses ali instalados, com a ideia de preservar a união e a identidade, só aprovavam o casamento entre os indivíduos do seu grupo étnico. Entretanto, Gamal se apaixonou por Maíra, irmã de Castro, e contrariou seus princípios. Casou com a carioca que fisgou seu coração.

Gamal era brincalhão e de conversa agradável.  Nos dias livres promovia rodas de bate-papo com seus familiares (Castro estava sempre presente). Gamal tocava violão, uma de suas habilidades; jogavam gamão, atividade comum entre os árabes e praticavam o idioma de origem. Se por um lado Gamal já falava o português com desenvoltura, mas acompanhado por um forte sotaque árabe, Castro, por sua vez, esbanjava o árabe rebuscado, com sotaque português.

Chegara o final de ano. Os árabes adoravam essa época pelo aquecimento financeiro no comércio. Nesse período os fiscais da Receita Federal faziam uma varredura nas lojas e verificavam a validade dos documentos.  Qualquer vacilo, era multa na certa e apreensão dos produtos.

Gamal se destacava entre os fiscais por ser um dos poucos comerciantes livres de qualquer autuação. Então, naquele ano foi designado um fiscal para sondar a loja do “esperto libanês”.

Apesar dos balconistas contratados para o atendimento, Gamal e Castro faziam questão de receber os clientes, pois, o libanês defendia a seguinte tese: O dono do negócio tem de ficar com o olho aberto.  

Pois bem, certo dia chegou um suposto freguês na loja. Um homem de meia idade, bem vestido. Entrou e perguntou o preço do metro do tecido exposto na prateleira.

Gamal informou o preço:

– Tecido de boa qualidade. Veio “do” Europa. Pode comprar sem medo. É de primeira.  Ainda pegou em sua própria orelha e simbolizou a excelência do produto.

O estranho pegou outra peça de tecido e perguntou:

– Quanto custa este?

Gamal deu o preço e comentou:

– Muito bom, veio “do” Europa também.

O estranho se virou para outra peça de tecido e repetiu a pergunta:

– Quanto custa?

Gamal informou apenas o preço.

– Este não é da Europa?,  perguntou o cliente.

– Sim. Tudo “do” Europa. Vai comprar? Tudo bom!

– Há outras coisas da Europa?

– Sim. Chapéu, vinho, whisky, charuto. [Pequena pausa]. Charuto de “primeiro”. Cubano!

O libanês não sabia, mas ele tinha acabado de dar um “tiro no pé”.

– Quanto custa?

O libanês já estava impaciente com aquele homem. Seu poder de persuasão parecia não surtir efeito. Ele deu o preço e completou:

– Vai levar “algum” coisa? É tudo de “bom” qualidade!

– Não. Só quero saber o preço.  Respondeu friamente e passou o olho em todo o estabelecimento.

–Você é o dono da loja?

– Aham!, fez um gesto positivo com a cabeça.

Com calma, o desconhecido sacou a carteira do bolso, mostrou a Gamal e se pronunciou:

– Eu sou fiscal da Receita Federal. Mostre-me as notas de todas as mercadorias importadas.

Pronto. O estrago estava feito!

Nesse momento Castro saiu do caixa e foi tirar seu amigo da enrascada, entretanto, foi surpreendido pela espirituosidade de Gamal, que ao vê-lo se aproximar falava efusivamente:

– “Ganhou”! “Ganhou”!

O libanês se dirigiu a Castro, fervorosamente:

– “Ganhou”! Paga! “Paga libanês”! Paga logo!

O libanês esticou a mão para receber o suposto pagamento.

Seus olhares se cruzaram, Gamal deu uma piscada de olho. Isso foi o suficiente para a compreensão do sócio: seria uma astúcia do árabe para despistar o fiscal. Mais que rápido, tirou o dinheiro no bolso e entregou à Gamal.

Pensou: Meu Deus! Agora esse libanês endoidou de vez.

 Assim como Castro, o fiscal também não entendeu nada.

– O que está acontecendo? Ganhou o quê?  Ficou louco?

– Libanês fez aposta com “brimo”. “O” primeira pessoa a entrar “no” loja de libanês e acreditar que “o” mercadoria é “do” Europa, “brimo” paga jogo “do” futebol. “Fiscal acreditou”. “Libanês ganhou”.

Castro deu uma risadinha, concordou e se afastou. Esse seria um assunto para o libanês resolver. 

– Senhor fiscal, Gamal e “brimo” “ser honesto”. Não “ter” nada errado. Loja “do” libanês não vende nada “do” Europa. Tudo brasileiro. Tudo “bom” qualidade.

Enquanto o libanês remetia o fiscal para bem longe, Castro bolava uma estratégia, queria recuperar o dinheiro da suposta aposta. Seria difícil, mas não impossível.

Na ocasião em que os restos mortais do imperador foram trazidos da França ao Rio de Janeiro, Gamal, que se tornara um renomado empresário, promoveu uma solenidade comemorativa ao imperador, junto à comunidade árabe estabelecida no Brasil.

Ele, emocionado, se expressou de modo genuíno:

“A declaração do monarca brasileiro ao povo libanês, quando visitou aquele país, foi o pontapé inicial à relação fraterna que seria estabelecida entre os dois povos. Por ironia do destino, o imperador foi obrigado a sair de sua terra para se exilar na Europa, onde faleceu. Lamentavelmente, ele não teve o privilégio de acompanhar a evolução da amizade entre os brasileiros e o povo árabe, por quem tinha tanta estima.

Eu fui um grande admirador.  Conheci-o pessoalmente e sempre fui grato ao imperador por ter dado a oportunidade de sermos todos uma só nação. De sermos todos brasileiros. Aproveito, para agradecer também, ao meu amigo Castro, por ter me dado a oportunidade de permanecer no Brasil, de conhecê-lo, e conhecer minha esposa, que me deu dois lindos filhos, aqui presentes.

 Tenho certeza que minha história se assemelha à de milhares de libaneses-brasileiros, espalhados pelo país.

Nesse momento ele puxou Castro para perto de si e de mãos dadas e braços erguidos, encerrou seu discurso: “Brasil e Líbano, dois países e um forte vínculo afetivo”.

Os dois amigos foram ovacionados.

E a égua branca, hein?

 

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