A lama no pé do padre

Ninguém jamais o viu sem a sua batina preta. Era intelectual, admirado e amado pelo povo de uma próspera cidade do interior. Padre Jaques idealizou e construiu a casa paroquial para melhor acolher seus fiéis. Foi diretor espiritual da paróquia, de 1930 até 1990, ano em que faleceu. 

Dedicou-se aos paroquianos, à educação e ao magistério. Em 1960 tornou-se proprietário do Ginásio São Leopoldo – chamado carinhosamente pelos alunos, de Santo Léo –, onde era diretor e lecionava Latim, Português e Religião.

Àquela época, os alunos sonhavam com as comemorações da semana do estudante, a qual acontecia em torno do dia 11 de agosto – dia deles –, em que têm a oportunidade de exercitarem a cidadania e se sentirem integrados ao mundo social e educacional, por meio de jogos e gincanas organizadas pelas escolas. O Santo Léo, assim como as demais escolas, queria apresentar o seu melhor desempenho nas competições. Os treinos eram diários e acirrados.

Os meninos preferiam o futebol, futsal e basquetebol. As meninas gostavam mais de voleibol, corrida de resistência e de velocidade. Dentre as representantes, destacavam-se Catarina e Leninha.

 As duas tinham 12 anos, com biótipo corporal parecido: donas de estatura média, magras e azes na categoria de corrida. Eram alunas do segundo ano do ginásio, inquietas, com inteligência invejável, amigas, mas competiam entre si. O páreo era duro!

O ano era 1976. Aproximavam-se os “jogos de estudantes”, como era denominada a competição. Os treinos de “corrida” aconteciam no entorno da casa paroquial por ser um local de pouco movimento de carro. Os alunos classificados para participarem da corrida tinham de rodear o quarteirão, com marcação do tempo. Atrás da casa paroquial havia um terreno não habitado, no qual foi formada uma pequena mata. Lá havia um caminho por onde as pessoas usavam como atalho para atravessar à rua oposta, mas costumava ter poças de lama, principalmente, em dia chuvoso.

Faltavam dois dias para o início das competições. Os últimos treinos aconteceram naquela terça feira. O treinamento de corrida da equipe feminina ocorreu à tarde.

Estavam todas na posição de partida. O professor preparou o cronômetro:

– Priiiiiiii!, apitou.

Todas saíram em disparada.

Nos dois dias anteriores, Leninha chegou em segundo lugar. Ela prometeu a si mesma que neste último treino chegaria à frente. Entretanto, mal pôde acreditar que na segunda volta Catarina já se distanciava dela.

Leninha quis usar a esperteza para ultrapassar a amiga e a chamou:

– Catarina! Catarina! “Me espera”! Tenho uma coisa para te falar! É urgente!

Catarina, concentradíssima, não dava nem pelotas para Leninha. Contudo, de quando em quando olhava para trás e observava que se afastava cada vez mais da sua principal adversária.

Leninha sentia que despendia de um esforço sobre-humano, mas, em vão. Porém, determinada em ganhar a prova, de repente teve um estalo: Que mal haveria em burlar a regra para satisfazer o ego?, pensou ela. – Então, antes de chegar à esquina, num ímpeto, entrou na mata para cortar o caminho e ultrapassar a amiga. Sem saber que encontraria um “lamaçal”, foi nele que ela se atolou, escorregou e caiu.

Mergulhada na ingerência de sua ansiedade, pela ingenuidade e por não saber lidar com perdas, definitivamente, não foi sensata. Nem honesta. Razão, pela qual tudo conspirou contra ela.

Catarina continuou correndo no seu ritmo e foi a primeira a tocar a faixa de chegada, Leninha, a última, com passos mansos, pés e pernas todos enlameados. Ao ver o estado da garota, todos perguntaram:

– O que aconteceu!?

Leninha não sabia o que dizer, mas também não podia negar o ocorrido. Ela olhou para o professor e para um e outro colega, com um olhar pálido, marcado por vergonha e arrependimento. Para ela, estava escrito na sua testa a tentativa de sabotagem.

Não teve jeito, as circunstancias levaram-na a contar a verdade. Contudo, ela se expressou bem baixinho:

– Caí numa poça de lama.

Leninha teve que se explicar melhor ao professor, que lhe deu um belo sermão e prometeu notificar o fato ao diretor da escola, o padre Jaques. Ela pediu desculpa pelo seu ato impensado e também, solicitou que não a delatasse ao padre. Não adiantou o seu apelo.

Terminada as broncas, Catarina a chamou e perguntou: Leninha, o que você quer me dizer?

Ela, num misto de frustração e raiva, respondeu: Nada! – Virou as costas e foi para casa, com a certeza de que, também, seria repreendida pela mãe, que não admitia atitudes ímprobas.

No dia seguinte, ao chegar ao ginásio, Leninha encontrou uma notificação na portaria para ir falar com o padre Jaques. Ao entrar na sala o padre ordenou que se sentasse. Ela tremia de medo, ele, dono de um rigorosíssimo senso de ética, destrinchou um duro rosário de repreensões.

Leninha tinha um olhar diferenciado para os pés das pessoas – tem até hoje! “A bola da vez” eram os pés do padre. Ele costumava prestar serviços sociais às comunidades na periferia e zona rural, onde não havia pavimentação, e inadvertidamente, voltava à região urbana com os sapatos enlameados e não os limpava com esmero. Era um tanto desligado para essas coisas!

De onde estava sentada, Leninha podia observar os pés do vigário, que naquele dia estavam, especialmente, sujos de lama. Ela viu: Tinha lama nos pés do padre!

Enquanto ele ralhava, ela se questionava: porque será que esse padre não limpa os sapatos? Ai meu Deus, como faço para perguntar isso? “Ele pode ter Deus no coração, mas nos pés ele tem é lama!” Concluiu, assim, o seu fértil pensamento.

O sacerdote encerrou a ladainha, dizendo:

–Você é uma menina de virtudes, mas nesta semana já recebi reclamação sua por desobediência em sala de aula e como não bastasse, agora essa atitude antidesportiva! Diga-me: o que você merece?

Encolhida na cadeira, sua resposta se resumiu em uma única palavra:

– Tá!

Houve uma pausa. O padre queria ouvir mais: Tá, o quê?  Você não tem mais nada a dizer?

– Desculpe-me padre, isso não vai se repetir.

– Você vai escrever cem vezes as frases: “Eu não desobedecerei mais os professores” e “eu abomino deslealdade”. E traga amanhã para eu dar o visto. Venha direto falar comigo antes de ir para a sala de aula. Ah! Também, traga na ponta da língua a conjugação do verbo “arrepender.” 

– Certo padre. Posso ir?

– Não! Antes, me responda: Você achou bonito ir casa com o tênis sujo de lama?

Ela olhou fixamente para os pés do pároco e, timidamente, porém, sem deixar a ousadia de lado, manifestou:

– Feio! Muito feio! Mas,“quem nunca teve os pés sujos de lama que atire a primeira pedra”!

Leninha era uma adolescente espontânea e espirituosa, no entanto, procurava uma estratégia para delatar a lama do pé do padre, de forma que sua espontaneidade não fosse interpretada como desacato e piorasse a sua situação frente ao padre, a qual não era das melhores. 

Ao ser liberada para ir à sala de aula, ao sair, tomou coragem, de volta, se inclinou colocando apenas a cabeça para o interior da sala e perguntou o que há tempos gostaria de saber:

– Por que sempre tem lama no seu pé?  – Não quis esperar a resposta e disparou em corrida para a sala de aula, pensando: Ele não tem moral para falar do meu tênis sujo!

O padre olhou para seus pés, sorriu e sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

No dia seguinte a garota levou o caderno com as frases escritas, conforme determinação do padre. Após correção foi a vez de conjugar o verbo. Assim, ela cumpriu as tarefas de redenção.

– Espero que você tenha aprendido a lição. – Disse o vigário.

– Sim, padre. Desculpe-me!

Leninha sentiu o sabor amargo das consequências de transgredir regras e de não medir as consequências de seus atos. Essa foi uma das lições das aventuras “infanto-juvenil” que ela carrega consigo até hoje.

E na sala do padre: para não perder o costume, Leninha volta, dá aquela olhada no pé do vigário. Ele estava com um sapato novinho! E foi inevitável e efusiva a reação da garota:

– Uau! Bonito sapato, padre Jaques!

  • Franceliny Couto Gibram

    História envolvente, muito envolvente. Me despertou interesse na leitura.

    • Ana Costa

      Obrigada, Franceliny. Muito bom ter você como leitora. Abraços. Ana Costa

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