“Me desculpe” por eu ter voz

Imagem da internet

Adaptado do texto ‘Porcos não reconhecem pérolas” da amiga e escritora Stella Florence (com a devida autorização). Há algum tempo Florence escreveu uma carta de presente para uma amiga que levara um fora. À época, fez bem a ela ter a experiência materializada em texto, o qual poderia ser entregue ao dito cujo (e foi), poderia ser impresso e simbolicamente queimado (e foi), poderia fazê-la erguer a cabeça e a autoestima (e fez). Se fez bem para uma mulher, poderá fazer para muitas mulheres que amaram demais, mas foram amadas de menos.

Me desculpe por ter tomado a iniciativa. Me desculpe por ter falado o que você queria ouvir. Me desculpe por ter ligado. Me desculpe por ter esperado.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe pelas feridas que sua ex deixou em você. Me desculpe por eu ter sido a primeira depois dela. Me desculpe por não entender seu excesso de ciúme. Me desculpe por eu ter dito “sim”. Me desculpe por eu ter dito “não”.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por você ter me achado ousada demais. Me desculpe por ser intensa. Me desculpe por desejar. Me desculpe por não desejar.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe pelo que foi ruim. Me desculpe pelo que foi bom. Me desculpe pelo atrevimento de supor que eu merecia o que de bom aconteceu.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por eu não ter usado máscara em nenhum momento. Me desculpe por ter tirado a roupa. Me desculpe por ter mostrado meu corpo. Me desculpe por eu ter gostado de mostrar meu corpo.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por eu ter falado verdades. Me desculpe por você não ter entendido um terço do que eu falei.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por, em algum momento, eu ter te achado bonito. Me desculpe por, em algum momento, eu ter me achado bonita. Me desculpe por, em algum momento, eu ter te amado. Me desculpe por ter me amado em todos os momentos.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe pelo seu desconhecimento do mundo. Me desculpe por eu ter alma livre.
Me desculpe por eu ter voz.
Me desculpe por eu gostar de rosas e amar tulipas. Me desculpe pela sua nova namorada achar margarida uma flor pobre.
Me desculpe por você ter ido embora. Me desculpe por eu não entender porque você foi embora. Me desculpe por eu ter ficado.

Sobretudo, me desculpe por eu pedir essas ridículas, inúteis e dolorosas desculpas. Que, naturalmente, não são para você, afinal, porcos não reconhecem pérolas.

Três imagens tiradas da internet

 

Ana Costa

compulsiva, escritora, aluna da vida e idealista em conflito. Viciada em viagens, praia e psicanálise. Ama boa mesa, bom papo, música, ciências e ideias excêntricas. Dividiu sua vida profissional em duas fases: a primeira foi vivida por mais de três décadas, na área da saúde, no mundo científico, acadêmico e gestão pública, período em que publicou vários artigos científicos; a segunda iniciou em 2015, quando assumiu seu jeito peculiar de escrever, ao reconstruir sua história como escritora. Autora de crônicas, contos e do livro “Volta - se houver motivo para voltar”. Enfrenta o mundo com a imprevisibilidade do artista, precisão do arquiteto e a criatividade do escritor.

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